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domingo, 22 de janeiro de 2012

O corpo no cinema

                                      M. Foucault

Michel Foucault foi o primeiro a compreender o corpo como expressão de poderes que se relacionam estrategicamente. Para o filósofo, o corpo é agente e peça dentro de um jogo de forças e saberes presente em toda a sociedade, que o torna local de símbolos que nele se inscrevem. Neste compo de guerra o corpo é sua prova. E a alma surge neste período como instrumento de atuação dos poderes/saberes sobre o corpo, no processo de constituição do corpo histórico dos sujeitos. No cinema, o corpo foi debatido, refletido, mostrado, censurado, ideologizado, vulgarizado, ocultado, inventado e reinventado constantemente na telona. Podemos citar vários filmes onde o corpo toma lugar de protagonista, como Henry e June (1990) de Philip Kaufman; Delta de vénus (1995) de Zalman King; A Cor Púrpura (1985) de Steven Spielberg; Amigas de colégio (1998) de Lukas Moodysson; Amores e outras catástrofes (1996) de Emma Kate Croghan; As Bostonianas (1984) de James Ivory; As horas (2002) de Stephen Daldry; Beleza Americana (1999); Billy Eliot (2000) de Stephen Daldry; Chocolate (2000) de Lasse Hallström; Delicada atração (1996) de Hettie Macdonald.

                                                                         Anaïs Nin


Podemos ver que a lista é enorme. O corpo sempre foi o verdadeiro palco de lutas e motivações, e também para a alma, entendida aqui não como seu conceito metafísico-místico, mas, do entendido em seu aspecto filosófico, ou seja, alma é entendida como subjetividade, aquilo que diz quem somos e como nos enxergamos como indivíduos. Através do método genealogico que Foucault revelou a importância do estudo da corporeidade no que nela se manifesta como mais "próximo", também denominada de "história efetiva" (nitidamente de inspiração nietzscheana): "a história efetiva [...] lança seus olhares ao que está próximo: o corpo, o sistema nervoso, os alimentos e a digestão, as energias; ela perscruta as decadências" (Machado, 1979, p. 29). Para Foucault:

                                                    Filme Beleza Americana 1999



O corpo: superfície de inscrição dos acontecimentos (enquanto que a linguagem os marca e as ideias os dissolvem), lugar de dissolução do Eu (que supõe a quimera de uma unidade substancial), volume em perpétua pulverização. A genealogia (...) está portanto no ponto de articulação do corpo com a história. Ela deve mostrar o corpo inteiramente marcado de história e a história arruinando o corpo (Machado, 1979, p. 22).


                             A cor púrpura 1985

O Corpo e alma construídos e embebidos de história através de mecanismos discursivos, os elementos formadores de subjetividade, de forma que se torna imprescindível associá-los ao processo de edificação da própria identidade histórica do indivíduo. Ou seja, é o corpo que dá a subjetividade e não o contrário como a tradição filosófica repetiu durante os séculos, esta tradição vem desde a noção de corpo de Sócrates e do sistema judaico-cristão na sociedade ocidental. Para Platão, o corpo é algo parecido com um receptáculo que condena o corpo as mazelas do tempo. A alma, é algo puro, de um mundo das formas originais.
O que Foucault faz (e bem anteriormente Nietzsche) é inverter esta lógica platônica, não é a alma (psiquê) que domina o corpo, mas, é o corpo que controla as ações e cria inclusive o EU subjetivo.

                                                                Billy Eliot 2000


Para Foucault (1975/1996), a alma moderna é "o correlativo atual de uma certa tecnologia do poder sobre o corpo" (p.31). Para ele:
Não se deveria dizer que a alma é uma ilusão, ou um efeito ideológico, mas afirmar que ela existe, que tem uma realidade, que é produzida permanentemente, em torno, na superfície, no interior do corpo pelo funcionamento de um poder que se exerce sobre os que são punidos – de uma maneira geral sobre os que são vigiados, treinados e corrigidos, sobre os loucos, as crianças, os escolares, os colonizados, sobre os que são fixados a um aparelho de produção e controlados durante toda a existência. Realidade histórica dessa alma, que, diferentemente da alma representada pela teologia cristã, não nasce faltosa e merecedora de castigo, mas nasce antes de procedimentos de punição, de vigilãncia, de castigo e de coação. Esta alma real e incorpórea não é absolutamente substãncia; é o elemento onde se articulam os efeitos de um certo tipo de poder e a referência de um saber, a engrenagem pela qual as relações de poder dão lugar a um saber possível, e o saber reconduz e reforça os efeitos de poder. Sobre essa realidade-referência, vários conceitos foram construídos e campos de análise foram demarcados: psique, subjetividade, personalidade, consciência, etc.; sobre ela técnicas e discursos científicos foram edificados; a partir dela, valorizaram-se as reivindicações morais do humanismo. Mas não devemos nos enganar: a alma, ilusão dos teólogos, não foi substituída por um homem real, objeto de saber, de reflexão filosófica ou de intervenção técnica. O homem de que nos falam e que nos convidam a liberar já é em si mesmo o efeito de uma sujeição bem mais profunda que ele. Uma alma o habita e o leva à existência, que é ela mesma uma peça no domínio exercido pelo poder sobre o corpo. A alma, efeito e instrumento de uma anatomia política; a alma, prisão do corpo. (p.31-32)

                                                   Amigas de colégio 1998

Ou seja, a alma é entendida aqui como uma produção sócio-histórica-cultural, através do desenvolvimento de uma série de discursos e práticas de subjugação do corpo. É adesiva aos corpos e comportamentos, mas enquanto realidade histórico-discursiva. 
 
                                                                   Chocolate 1998

 
Assim como na filosofia, no cinema, o corpo foi entendido sob diversas formas e análises semiológicas conforme as mudanças histórico-filosóficas, de uma certa forma, o cinema também foi veículo e prática de modos de subjetivação da sociedade. Podemos verificar com os filmes acima citados, cada diretor filmou um determinado conceito de corpo, do sexo, da sensualidade, das perversões (no contexto psicanalítico), das mudanças de paradigma, enfim, o cinema também foi ator e espectador parcial destes saberes. Por exemplo, no filme Henry e June podemos ver as descobertas de Anaïs nin sobre o seu corpo e da sexualidade; em Beleza Americana aborda a relação conjugal, o gênero e a sexualidade no conflito de gerações e a homofobia.
Enfim, o cinema foi um veículo de extrema necessidade e importância para o modo como vemos e descobrimos o nosso corpo, e como estes saberes contribuem para uma construção da nossa subjetividade.

Filmografia:
A Cor Púrpura. EUA, 1985, Steven Spielberg.

Amigas de colégio. Suécia, 1998, Lukas Moodysson. 

As Bostonianas. Inglaterra, 1984, James Ivory.
As horas. EUA, 2002, Stephen Daldry.
Beleza Americana. EUA, 1999, Sam Mendes.
Billy Eliot. Reino Unido, 2000, Stephen Daldry.
Chocolate. EUA, 2000, Lasse Hallström .

Referências:
Foucault, M. (1988). História da sexualidade I: A vontade de saber. (11a ed., M. T. da Costa Albuquerque & J. A. Guilhon Albuquerque, trads.). Rio de Janeiro: Graal. 
Foucault, M. (1995). As palavras e as coisas. (7a ed., S. T. Muchail, trad.). São Paulo: Martins Fontes.
Foucault, M. (1996). Vigiar e punir: Nascimento da prisão. (14a ed., L. M. Pondé Vassallo, trad.). Petrópolis, RJ: Vozes. 

Foucault, M. (2000). A ordem do discurso. 6a ed., L. F. de A. Sampaio, trad. São Paulo: Loyola.
Machado, R. (Org.). (1979). Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal. 
SILVEIRA, Fernando de Almeida; FURLAN, Reinaldo. Corpo e Alma em Foucault: Postulados para uma Metodologia da Psicologia. Psicol. USP,  São Paulo,  v. 14,  n. 3,   2003 .   Available from . access on  22  Jan.  2012.  http://dx.doi.org/10.1590/S0103-65642003000300012.

4 comentários:

Tiago Britto disse...

Oi Nelson! Obrigado pela Visita! O que seria o selo? fiquei interessado! Visita feita, seguindo e blog linkado! abs!

Silvano Vianna disse...

Oi Nelson, desde já agradecemos a sua indicação. Um forte abraço e esperamos manter a nossa jornada aqui no mundo virtual divulgando e informando sobre cinema por muito tempo.

Tiago Britto disse...

Queremos o Selo!!! Já estamos indicando rs...mas não consegui comentar na postagem que pede e explica o prêmio!

João Linno disse...

Muito interessante o seu post.
Gosto de praticamente todos os filmes que vc citou.

Abraço.

João Linno - www.cinemosaico.com

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