M. Foucault
Michel
Foucault foi
o primeiro a compreender o
corpo como expressão de poderes que se relacionam
estrategicamente. Para
o filósofo,
o
corpo é agente e peça dentro de um jogo de forças e
saberes presente
em toda a sociedade,
que o torna local
de símbolos
que nele se inscrevem. Neste
compo de guerra o corpo é sua prova.
E a alma surge neste
período
como instrumento de atuação dos poderes/saberes sobre o corpo, no
processo de constituição do corpo histórico dos sujeitos. No
cinema, o corpo foi debatido, refletido, mostrado, censurado,
ideologizado, vulgarizado, ocultado, inventado e reinventado
constantemente na telona. Podemos citar vários filmes onde o corpo
toma lugar de protagonista, como Henry
e June
(1990) de Philip Kaufman; Delta de vénus (1995)
de Zalman King; A Cor
Púrpura (1985) de Steven
Spielberg; Amigas de
colégio (1998) de Lukas Moodysson; Amores
e outras catástrofes (1996)
de Emma Kate Croghan; As
Bostonianas (1984)
de James Ivory; As
horas (2002)
de Stephen Daldry; Beleza
Americana (1999);
Billy Eliot
(2000) de
Stephen Daldry; Chocolate
(2000)
de Lasse Hallström;
Delicada atração
(1996)
de Hettie Macdonald.
Anaïs Nin
Podemos
ver que a lista é enorme. O corpo sempre foi o verdadeiro palco de
lutas e motivações, e também para a alma, entendida aqui não como
seu conceito metafísico-místico, mas, do entendido em seu aspecto filosófico,
ou seja, alma é entendida como subjetividade, aquilo que diz quem somos
e como nos enxergamos como indivíduos. Através
do método genealogico
que Foucault revelou a importância do estudo da corporeidade no que
nela se manifesta como mais "próximo",
também denominada de "história efetiva" (nitidamente de
inspiração nietzscheana): "a história efetiva [...] lança
seus olhares ao que está próximo: o corpo, o sistema nervoso, os
alimentos e a digestão, as energias; ela perscruta as decadências"
(Machado, 1979, p. 29). Para Foucault:
Filme Beleza Americana 1999
O
corpo: superfície de inscrição dos acontecimentos (enquanto que a
linguagem os marca e as ideias os dissolvem), lugar de dissolução
do Eu (que supõe a quimera de uma unidade substancial), volume em
perpétua pulverização. A genealogia (...) está portanto no ponto
de articulação do corpo com a história. Ela deve mostrar o corpo
inteiramente marcado de história e a história arruinando o corpo
(Machado, 1979, p. 22).
A cor púrpura 1985
O
Corpo e alma construídos e embebidos de história através de
mecanismos discursivos, os elementos formadores de subjetividade, de forma que
se torna imprescindível associá-los ao processo de edificação da
própria identidade histórica do indivíduo. Ou seja, é o corpo que
dá a subjetividade e não o contrário como a tradição filosófica
repetiu durante os séculos, esta tradição vem desde a noção de
corpo de Sócrates e do sistema judaico-cristão na sociedade
ocidental. Para Platão, o corpo é algo parecido com um receptáculo
que condena o corpo as mazelas do tempo. A alma, é algo puro, de um
mundo das formas originais.
O
que Foucault faz (e bem anteriormente Nietzsche) é inverter esta
lógica platônica, não é a alma (psiquê) que domina o
corpo, mas, é o corpo que controla as ações e cria inclusive o EU
subjetivo.
Billy Eliot 2000
Para
Foucault (1975/1996), a alma moderna é "o correlativo atual de
uma certa tecnologia do poder sobre o corpo" (p.31). Para
ele:
Não se deveria dizer que a alma é uma ilusão, ou um efeito ideológico, mas afirmar que ela existe, que tem uma realidade, que é produzida permanentemente, em torno, na superfície, no interior do corpo pelo funcionamento de um poder que se exerce sobre os que são punidos – de uma maneira geral sobre os que são vigiados, treinados e corrigidos, sobre os loucos, as crianças, os escolares, os colonizados, sobre os que são fixados a um aparelho de produção e controlados durante toda a existência. Realidade histórica dessa alma, que, diferentemente da alma representada pela teologia cristã, não nasce faltosa e merecedora de castigo, mas nasce antes de procedimentos de punição, de vigilãncia, de castigo e de coação. Esta alma real e incorpórea não é absolutamente substãncia; é o elemento onde se articulam os efeitos de um certo tipo de poder e a referência de um saber, a engrenagem pela qual as relações de poder dão lugar a um saber possível, e o saber reconduz e reforça os efeitos de poder. Sobre essa realidade-referência, vários conceitos foram construídos e campos de análise foram demarcados: psique, subjetividade, personalidade, consciência, etc.; sobre ela técnicas e discursos científicos foram edificados; a partir dela, valorizaram-se as reivindicações morais do humanismo. Mas não devemos nos enganar: a alma, ilusão dos teólogos, não foi substituída por um homem real, objeto de saber, de reflexão filosófica ou de intervenção técnica. O homem de que nos falam e que nos convidam a liberar já é em si mesmo o efeito de uma sujeição bem mais profunda que ele. Uma alma o habita e o leva à existência, que é ela mesma uma peça no domínio exercido pelo poder sobre o corpo. A alma, efeito e instrumento de uma anatomia política; a alma, prisão do corpo. (p.31-32)
Amigas de colégio 1998
Ou
seja, a alma é entendida aqui como uma produção
sócio-histórica-cultural, através do desenvolvimento de uma série
de discursos e práticas de subjugação do corpo. É adesiva aos
corpos e comportamentos, mas enquanto realidade histórico-discursiva.
Chocolate 1998
Assim
como na filosofia, no cinema, o corpo foi entendido sob diversas
formas e análises semiológicas conforme as mudanças
histórico-filosóficas, de uma certa forma, o cinema também foi
veículo e prática de modos de subjetivação da sociedade. Podemos
verificar com os filmes acima citados, cada diretor filmou um
determinado conceito de corpo, do sexo, da sensualidade, das
perversões (no contexto psicanalítico), das mudanças de paradigma,
enfim, o cinema também foi ator e espectador parcial destes saberes.
Por exemplo, no filme Henry e June podemos ver as descobertas de
Anaïs nin sobre o seu corpo e da sexualidade; em Beleza
Americana aborda a relação conjugal, o gênero e a
sexualidade no conflito de gerações e a homofobia.
Enfim,
o cinema foi um veículo de extrema necessidade e importância para o
modo como vemos e descobrimos o nosso corpo, e como estes saberes
contribuem para uma construção da nossa subjetividade.
Filmografia:
A Cor Púrpura. EUA, 1985, Steven Spielberg.
Amigas de colégio. Suécia, 1998, Lukas Moodysson.
Filmografia:
A Cor Púrpura. EUA, 1985, Steven Spielberg.
Amigas de colégio. Suécia, 1998, Lukas Moodysson.
As Bostonianas. Inglaterra, 1984, James Ivory.
As horas. EUA, 2002, Stephen Daldry.
Beleza Americana. EUA, 1999, Sam Mendes.
Billy Eliot. Reino Unido, 2000, Stephen Daldry.
Chocolate. EUA, 2000, Lasse Hallström .
Referências:
Foucault, M. (1988). História da sexualidade I: A vontade de saber. (11a ed., M. T. da Costa Albuquerque & J. A. Guilhon Albuquerque, trads.). Rio de Janeiro: Graal.
Foucault, M. (1995). As palavras e as coisas. (7a ed., S. T. Muchail, trad.). São Paulo: Martins Fontes.
Foucault, M. (1996). Vigiar e punir: Nascimento da prisão. (14a ed., L. M. Pondé Vassallo, trad.). Petrópolis, RJ: Vozes.
Foucault, M. (2000). A ordem do discurso. 6a ed., L. F. de A. Sampaio, trad. São Paulo: Loyola.
Machado, R. (Org.). (1979). Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal.
SILVEIRA, Fernando de Almeida; FURLAN, Reinaldo. Corpo e Alma em Foucault: Postulados para uma Metodologia da Psicologia. Psicol. USP, São Paulo, v. 14, n. 3, 2003 . Available from







4 comentários:
Oi Nelson! Obrigado pela Visita! O que seria o selo? fiquei interessado! Visita feita, seguindo e blog linkado! abs!
Oi Nelson, desde já agradecemos a sua indicação. Um forte abraço e esperamos manter a nossa jornada aqui no mundo virtual divulgando e informando sobre cinema por muito tempo.
Queremos o Selo!!! Já estamos indicando rs...mas não consegui comentar na postagem que pede e explica o prêmio!
Muito interessante o seu post.
Gosto de praticamente todos os filmes que vc citou.
Abraço.
João Linno - www.cinemosaico.com
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