Luz
de Inverno (Nattvardsgästerna, 1963)
é um
filme de 1962, segunda e melhor parte da “Trilogia do silêncio”
(embora o diretor não aceite a ideia de trilogia). Bergman baseou-se
no clássico Diário
de um Pároco de Aldeia,
de Robert Bresson. O filme tem como objetivo questionar o silêncio
de Deus frente a ameaça atômica? Talvez,
Luz
de inverno
fala da perda da fé, mas também de uma certa melancolia adquirida
por todos que experimentaram sentimentos de uma ameaça nuclear. Não
só os fiéis sofrem com as hesitações do pároco descrente: sua
amante também é massacrada com a desilusão da autoridade religiosa
local, homem distante, incapaz de amar. Ela diz ao amante: “Nunca
acreditei na sua fé, sempre a achei neurótica e obscurantista”. O
pastor (Thomas) se sente culpado pelo suicídio de um humilde
pescador, dilacerado pelo medo da guerra nuclear então em curso no
mundo. A melancolia se encontra como um discurso na obra, denunciando
e acusando ao mesmo tempo.
O filme se encontra no contexto da guerra
fria, em 1962, em plena crise internacional política,
o
filme
chegava
às telas anunciando uma crise de fé entre um pescador oriundo das
silenciosas cidades do norte da Europa e atônito por saber entre os
noticiários que a China possuía uma bomba atômica e o pastor que
igualmente, está em crise moral com seu ofício. Quase todo o filme
se passa no interior da igreja que cria uma sensação de isolamento
e penitência. Quando se sai dessa atmosfera isolada não é para
espaços abertos alegres e sim para acompanhar o pastor que se dirige
para lá das Colinas onde o pescador se matou. O que podemos ouvir é
apenas o barulho das águas. Esse momento de isolamento atinge o
protagonista de forma que questionar a existência de Deus é quase
um imperativo existencial para o protagonista.
O filme tem semelhança
com o filme Offret (o sacrifício – 1986 ) de Tarkovski, onde a
ameaça de uma guerra põe em cheque a esperança do homem frente as
descobertas da energia atômica. A crise que o Thomas sente somente
ocorre porque ele acredita na existência de uma essência eterna e
bondosa (Deus) anterior à sua própria existência. O homem, como o
protagonista cria a ilusão de Deus para explicar a sua existência e
quando tenta aplicá-la ao mundo, certifica-se do seu erro e entra em
crise. Para ele, Deus está silencioso. A personagem
Märta, que compartilha a maioria das cenas do filme com Thomas
parece consciente de sua condição existencial. Ela dirige-se a
Thomas e diz: - Deus nunca falou, pois Deus não existe. Só
isso. O conteúdo de uma carta de Marta dirigida a Thomas
reforça a ideia. Na carta ela menciona que não acredita na fé de
Thomas. Ela nunca passara por aflições religiosas porque foi criada
numa família em que os preceitos eram o carinho, amor e amizade.
Deus e Jesus sempre lhe foram noções superficiais e sem sentido. É
nessa concepção de divindade que o diretor nos evidência em
primeira mão. E é nessa contradição entre o ideal de uma força
divina e consciente e a realidade dura e crua que o homem vive que o
diretor aponta uma alternativa para uma convivência mais humanizada.
Luz de inverno é um
dos filmes mais tensos da sua carreira, a obra toca temas
existenciais, como fé, medo, vida e morte. Os diálogos ganham as
interpretações irrepreensíveis de Gunnar Bjornstrand, Ingrid
Thulin e Max Von Sydow, cuja densidade é suavizada pela bela
fotografia de Sven Nykvist.
Texto dedicado ao amigo Tarcísio.
Filmografia:
Luz de Inverno. Nattvardsgästerna. Ingmar Bergman. Suécia. 1963. 81 minutos.
Filmografia:
Luz de Inverno. Nattvardsgästerna. Ingmar Bergman. Suécia. 1963. 81 minutos.



5 comentários:
Já vi "luz de Inverno" há um um bom tempo e todos os seus segundos permanecem vivos em minha memória. Um dos melhores de Bergman.
Feliz ano novo também! É sempre um prazer aparecer por aqui!
Olá. É um prazer conhecer o teu blogger. Sou apaixonado pelos filmes de Bergmam. Estou preparando uma "Sessão" com alguns filmes dele. Fiz uma resenha do "Sétimo Selo" e estou já preparando outras. Este,ainda, não vi. Já tenho comigo. Comprei neste dias. Irei vê-lo, ainda, hoje. Comprei, também, "Crisis". Será um prazer compartilhar ideias com você. Sou um amante no sentido mais restrito do conceito da própria Filosofia. Parabéns pelo texto. Está exuberante. Até...
Luz de Inverno é maravilhoso!!!
Eu tenho um especial já arquitetado desde o ano passado para Janeiro agora. No de fevereiro, já adianto que você será convidado...
Tentei entrar em contato com você por muitos dias, para o nosso Prêmio, mas não consegui. Espero que esteja mais tranquilo da correria aí.
Um abraço.
E aí, rapaz, tudo bem?
Acho interessante a proposta da reunião cinéfila, e fico muito lisonjeado com a consideração para a palestra. Desde já demonstro o meu interesse, e vamos conversando no decorrer do ano.
Um abraço!
Postar um comentário