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domingo, 8 de janeiro de 2012

Bergman e a existência de Deus





Luz de Inverno (Nattvardsgästerna, 1963) é um filme de 1962, segunda e melhor parte da “Trilogia do silêncio” (embora o diretor não aceite a ideia de trilogia). Bergman baseou-se no clássico Diário de um Pároco de Aldeia, de Robert Bresson. O filme tem como objetivo questionar o silêncio de Deus frente a ameaça atômica? Talvez, Luz de inverno fala da perda da fé, mas também de uma certa melancolia adquirida por todos que experimentaram sentimentos de uma ameaça nuclear. Não só os fiéis sofrem com as hesitações do pároco descrente: sua amante também é massacrada com a desilusão da autoridade religiosa local, homem distante, incapaz de amar. Ela diz ao amante: “Nunca acreditei na sua fé, sempre a achei neurótica e obscurantista”. O pastor (Thomas) se sente culpado pelo suicídio de um humilde pescador, dilacerado pelo medo da guerra nuclear então em curso no mundo. A melancolia se encontra como um discurso na obra, denunciando e acusando ao mesmo tempo. 


 O filme se encontra no contexto da guerra fria, em 1962, em plena crise internacional política, o filme chegava às telas anunciando uma crise de fé entre um pescador oriundo das silenciosas cidades do norte da Europa e atônito por saber entre os noticiários que a China possuía uma bomba atômica e o pastor que igualmente, está em crise moral com seu ofício. Quase todo o filme se passa no interior da igreja que cria uma sensação de isolamento e penitência. Quando se sai dessa atmosfera isolada não é para espaços abertos alegres e sim para acompanhar o pastor que se dirige para lá das Colinas onde o pescador se matou. O que podemos ouvir é apenas o barulho das águas. Esse momento de isolamento atinge o protagonista de forma que questionar a existência de Deus é quase um imperativo existencial para o protagonista. 


 O filme tem semelhança com o filme Offret (o sacrifício – 1986 ) de Tarkovski, onde a ameaça de uma guerra põe em cheque a esperança do homem frente as descobertas da energia atômica. A crise que o Thomas sente somente ocorre porque ele acredita na existência de uma essência eterna e bondosa (Deus) anterior à sua própria existência. O homem, como o protagonista cria a ilusão de Deus para explicar a sua existência e quando tenta aplicá-la ao mundo, certifica-se do seu erro e entra em crise. Para ele, Deus está silencioso. A personagem Märta, que compartilha a maioria das cenas do filme com Thomas parece consciente de sua condição existencial. Ela dirige-se a Thomas e diz: - Deus nunca falou, pois Deus não existe. Só isso. O conteúdo de uma carta de Marta dirigida a Thomas reforça a ideia. Na carta ela menciona que não acredita na fé de Thomas. Ela nunca passara por aflições religiosas porque foi criada numa família em que os preceitos eram o carinho, amor e amizade. Deus e Jesus sempre lhe foram noções superficiais e sem sentido. É nessa concepção de divindade que o diretor nos evidência em primeira mão. E é nessa contradição entre o ideal de uma força divina e consciente e a realidade dura e crua que o homem vive que o diretor aponta uma alternativa para uma convivência mais humanizada. Luz de inverno é um dos filmes mais tensos da sua carreira, a obra toca temas existenciais, como fé, medo, vida e morte. Os diálogos ganham as interpretações irrepreensíveis de Gunnar Bjornstrand, Ingrid Thulin e Max Von Sydow, cuja densidade é suavizada pela bela fotografia de Sven Nykvist.

Texto dedicado ao amigo Tarcísio. 

Filmografia:
Luz de Inverno. Nattvardsgästerna. Ingmar Bergman. Suécia.  1963. 81 minutos.

5 comentários:

Emmanuela disse...

Já vi "luz de Inverno" há um um bom tempo e todos os seus segundos permanecem vivos em minha memória. Um dos melhores de Bergman.

Emmanuela disse...

Feliz ano novo também! É sempre um prazer aparecer por aqui!

Maxwell Soares disse...

Olá. É um prazer conhecer o teu blogger. Sou apaixonado pelos filmes de Bergmam. Estou preparando uma "Sessão" com alguns filmes dele. Fiz uma resenha do "Sétimo Selo" e estou já preparando outras. Este,ainda, não vi. Já tenho comigo. Comprei neste dias. Irei vê-lo, ainda, hoje. Comprei, também, "Crisis". Será um prazer compartilhar ideias com você. Sou um amante no sentido mais restrito do conceito da própria Filosofia. Parabéns pelo texto. Está exuberante. Até...

Luiz Santiago disse...

Luz de Inverno é maravilhoso!!!

Eu tenho um especial já arquitetado desde o ano passado para Janeiro agora. No de fevereiro, já adianto que você será convidado...

Tentei entrar em contato com você por muitos dias, para o nosso Prêmio, mas não consegui. Espero que esteja mais tranquilo da correria aí.

Um abraço.

Luiz Santiago disse...

E aí, rapaz, tudo bem?

Acho interessante a proposta da reunião cinéfila, e fico muito lisonjeado com a consideração para a palestra. Desde já demonstro o meu interesse, e vamos conversando no decorrer do ano.

Um abraço!

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