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sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Elektra



By Nelson Lopes Rodrigues




Elektra foi dirigido pelo diretor Michael Cacoyannis, o mesmo que dirigiu a diva Maria Callas em Medéia de 1969 e Zorba o grego em 1964. O filme é uma versão cinematográfica do mito de Elektra escrita por dois autores um versão por Eurípides e outra por Sófocles. O filme tem como protagonista a Elektra (Irene Papas) e a mãe de Elektra por Maria Callas. A Electra de Sófocles foi apresentada pela primeira vez quando o autor já tinha idade avançada, em Atenas. Não conhecemos sua data exata de estréia, mas podemos situá-la entre 420 e 410 a.C. Da peça de Eurípides está datada com maior certeza por volta de 413 a.C. o tema é extraído da mitologia. Desta forma, observa-se que na Grécia Clássica a arte do dramaturgo não reside em criar algo completamente novo e original no sentido que hoje damos aos termos; afinal, o autor deve obedecer algumas regras para narrar uma história que de uma forma ou outra, é familiar ao espectador. 

 

Na peça de Sófocles, a tragédia começa em Micenas, Agamêmnon já fora assassinado pela esposa, Clitemnestra, e pelo amante desta, Egisto, em parte por ter sacrificado a própria filha Ifigênia à deusa Ártemis em razão da guerra de Tróia, enquanto isto, o filho Orestes fugira para longe. A peça começa com o retorno de Orestes, acompanhado de seu amigo Pílades e de seu preceptor, para vingar a morte de seu pai, obedecendo a Apolo, que falara através do oráculo Pítio. O preceptor é então incumbido de anunciar à Clitemnestra que Orestes morrera em uma corrida de carros. 

                                                           Sófocles

No filme, a história começa com a chegada de Agamenon, pai de Elektra e herói grego que lutou em Troia. O filme não mostra a ação de Deuses, o que demonstra a importância da ação humana em sua total independência e fatalidade, 0 fato de Eurípides dar pouca importância à interferência divina foi analisado por Albin Lesky como um novo caráter da obra de Eurípides, que a tornaria quase “laica” influência sofística, pois quando ele trata dos deuses, eles não seguem os padrões das peças de seus predecessores, cabendo ao humano toda a tragédia (mesmo que a resolução final 

                                                          Eurípides

 
venha dos céus (ex machina) . Após a chegada, Agamenon sem ter uma fala abraça os filhos e sai com Medéia para o palácio, enquanto isso Elektra ainda jovem avista uma pássaro preto sobrevoando o palácio, sinal de agouro entre os gregos.

No mito de Electra, desde o teatro grego até hoje encontramos como um dos princípios estruturantes, a oposição masculino versus feminino,e o triângulo edipiano, que opõe pai, mãe e filhos. Pierre Brunei, analisando as peças gre gas, sugere que esseess e esquema deveser subs tutuído por outro , mais característico do mito de Electra, que opõe reidefunto (Agamenão) ao concubinário usurpador (Egisto), e ao herdeiro frustrado (Orestes),afirmando que, além disso, o conflito mãe/filho dá especificidade a esse mi to (Edvanda B. da ROSA)

Elektra parece prever o assassinato de Agamenon pela mãe e o amante da mãe. Nas feições de Elektra podemos perceber a desolação, o desespero e a tragicidade de Elektra ao saber da perda do pai. Na maior parte do filme Elektra, agora sem seus longos cabelos, sofre de angústia, o  sofrimento também é bem retratado no filme mostrado o quanto Elektra amava o pai, sua autopunição pela perda do pai foi amplamente discutida pela história e psicanálise, assim como em Édipo houve a perda dos olhos, a castração psicológica está representada no corte dos cabelos da heroína.



Após a saída de Elektra do palácio, ela aparece já casada com um agricultor, o que para a nobreza é sinal de desonra, o filho Orestes permanece no palácio mas sem poderes políticos. Ao encontrar a irmã esta pede para matar os assassinos dos pais. No filme, numa cena Orestes pede pergunta quem vai orientá-lo para voltar. Se Orestes foi até a casa de Elektra saberia voltar, portanto, a orientação de um velho cego simboliza outro tipo de orientação, é a sabedoria dos ancestrais que orientará Orestes. 


 

Na obra escrita, temos a vingança de Elektra que convence o irmão assassinar a mãe e o padastro, ela é bem documentada tanto nas obras de Sófocles quanto de Eurípides, porém de formas diferentes. Assim como no filme, Elektra de Eurípides espera a vingança em uma casa de seu marido, no campo. Porém, no filme vemos apenas Elektra recebendo a mensagem, ou seja, o diretor não acha importante as cenas de violência.




É o matricídio ocorrendo dentro da casa de Elektra (que pela primeira vez é vista auxiliando também no ato) quando Clitemnestra vai ajudá-la com o filho que teria tido (o que na verdade é uma grande desculpa para atraí-la ao local). Após a morte do Egisto, Orestes volta para Elektra que o saúda com uma coroa de flores pela sua bravura “em terreno inimigo”. Em seguida chega a mãe de Elektra, Clitemnestra em sua carruagem. Neste momento o irmão sente desespero em ter que matar a mãe, mas sa irmão o convence a vingar a morte do amado pai. 

                                                        Irene Papas


A mãe lhe diz que foi Agamenon que matou a filha Ifigênia no Áulide com a explicação de faze-la casar com Aquiles, mas quando chega no altar Agamenon a degola com uma faca como expiação aos deuses, além disso, este ainda trás cassandra como segunda esposa, o que deixa a Clitemnestra furiosa. Neste momento temos o grupo de mulheres (o coro) tomando partido de ambas, mostrando assim que Clitemnestra também teve seus motivos para assassinar Agamenon. Na psicanálise, o mito de Elektra serve para simbolizar o amor que a filha tem pelo pai, ao mesmo tempo sua castração. Na peça , o objetivo é mostrar um caso moral para a sociedade. Na cultura grega, se admite que um mau cometido deva ser reparado. O encadeamento de tragédias possui uma logica interna, a imolação da filha Efigênia precisou ser reparada, e consequentemente a morte de Agamenon desencadeou outra reparação. Quando a rainha Clitemnestra entra na casa para pegar o corpo do marido é assassinada pelos filhos, neste momento novamente aparece o passaro preto do início do filme simbolizando outra desgraça,a dramaticidade entre o coro é vertiginoso e tenso com a música escolhida para o momento. “ a culpa é de Apolo” fala Orestes, o filme é espatucular, há muita proximidade com o texto escrito por Eurípides. A fotografia demonstra o quanto o homem está sozinho diante de sua fortuna, apesar de ser um drama pesado o diretor consegue deixa-lo leve e ativo, de maneira que o espectador não se cansa de assistir. Para quem gosta de tragédia grega e cinema o filme de Cacoyannis é excelente!


Dedicado a memória de Mihalis Kakogiannis.


Filmografia:
Elektra. Mihalis Kakogiannis. Grecia. 1962. 110 mimutos.


Referências:

ÉSQUILO. Oresteia: Coleção clássicos gregos e latinos. Edições 70.
EURÍPEDES. Alceste, Electra e Hipólito: tragédias gregas. Edições de Ouro.
SÓFOCLES. Electra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira S. A.
LESKY, Albin. História da Literatura Grega. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.
VERNANT, Jean-Pierre. Mito e sociedade na Grécia Antiga. Rio de Janeiro: José Olympio,
1999.

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