By Emmanuela
Plangente como o cinema de autor de Krzysztof Kieslowski, “Paisagem na Neblina” (1988), road movie minimalista de Theo Angelopoulos, acompanha a odisséia de dois irmãos, Voula (Tania Palaiologou) e Alexandros (Michalis Zeke), que buscam resolutamente o pai desconhecido. Duas crianças e uma ideia fixa ― a viagem para a Alemanha que supostamente fará com que eles alcancem seu objetivo. Falta medo, fator positivo para a realização do plano de viagem; em contrapartida, falta coragem, o que é completamente normal tratando-se de dois pequenos que nada sabem das inevitabilidades do mundo. O bucólico amor fraternal é notado sem delonga, não são palavras óbvias que revelam esse amor, cuja presença é sentida durante toda a projeção; sentimento sempre explícito, vivo, nunca tácito. Após as muitas e inevitáveis hesitações, os irmãos entram clandestinamente no trem, e com ingenuidade acham que o destino final é a realização do grande sonho. A porta é fechada e o som portentoso de Eleni Karaindrou invade o espectador já comovido com a demonstração de coragem dos esperançosos irmãos. Um sincero abraço no interior do trem em movimento confirma a desmedida alegria, inicia-se o melhor processo de amadurecimento existente ― aquele que depende diretamente das contingências de um mundo muitas vezes impiedoso.
Enregelados corpos ainda em desenvolvimento caminham sob o céu nebulado, seres que abrigam corações quentes de amor por uma figura paterna idealizada. A visão de um inocente que morre é motivo de choro sonoro, a cena marcada pela profunda tristeza atinge o espectador de forma eficaz. Orestis (Stratos Tzortzoglou) é um homem íntegro encontrado pelo caminho, artista inspirado, de alma e aparência preclaras. Os pequenos aventureiros conhecem a consternada trupe de Orestis, pobres homens condenados a assistir o declínio do espetáculo da interpretação.
Utilizando o tristonho grupo impedido de inocular sua arte, Angelopoulos insinua a deterioração intelectual do ser humano. Para confrontar o espírito evoluído de Orestis, eis que surge a figura que representa a abjeção encontrada em determinadas pessoas. Voula é vítima e tem seu corpo conspurcado sem nem mesmo conhecer as puras delícias da paixão. O sangue é expelido de seu corpo de modo violento, em quantidade copiosa; ao observar sua mão infantil, suja com o sangue ainda quente, o rosto da menina não esboça o espanto esperado, tamanha é a inocência que reside em si.
O pai, motivo de todos os acontecimentos, parece cada vez mais distante. Alexandros, sendo alterado gradativamente por uma independência precoce, observa o comportamento inaudito de sua irmã perante o ingênuo galanteio de Orestis. Voula sente o rebuliço interior do despertar da sexualidade e da desgraça que sofreu em mãos desumanas ao reencontrar o artista espirituoso. Uma evidência em uma casa noturna revela mais do que Voula gostaria de saber. Orestis é mais complexo do que aparenta, tem de suprir suas necessidades sexuais, mas teme machucar com uma verdade agressiva demais para olhos que enxergaram o insuficiente. Como é de se esperar, Orestis age de acordo com seu instinto protetor e conforta a menina, Alexandre observa com seus olhos curiosos, a música é solidária à dor e também chora. Em uma magistral sequência, um fato estranho interrompe as elucubrações de Orestis ― uma colossal mão de concreto é retirada do mar por um helicóptero.
Com um órgão morto, sem o dedo indicador, a sequência exercita a semiótica. Não há mão, nem mesmo a de Deus, capaz de pôr os filhos de um pai ausente no destino correto. No sublime desfecho, os protagonistas sem armaduras colhem o resultado de sua inquestionável força de vontade. A paisagem na neblina é mais simplória do que imaginávamos, apenas uma árvore a compõe. De mãos dadas os irmãos indissociáveis correm até a rainha daquela paisagem e tornam-se extensão da natureza. Forma-se então uma imagem pictórica, digna de adoração, selando a extraordinária odisséia filmada por Angelopoulos.
Texto gentilmente cedido para o Filocinética.
Filmografia:
Theodoros Angelopoulos. Paisagem na Neblina. Itália, França, Grécia. 1988. 127 mim.



3 comentários:
Ótimo texto da Emmanuela. Gosto bastante do diretor, embora não tenha visto esse filme...
Nelson,
Até a sexta/sábado envio o texto de Zorba - O Grego.
No mais, recomendo que conheça http://curtindocinema.blogspot.com/ do amigo Rodrigo Souza.
Abraços.
Não estou no Filmow, e vc? É bacana ?
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