Neste breve ensaio procuro investigar o papel das cores no episódio “monte Fuji” em vermelho. Para tal, detive-me não no aspecto ativista do diretor, mas, encontrar alguns conceitos-imagem escondidos na obra imagética. O episódio começa de forma clara, não se esconde segredo da história. Em uma grande usina de energia nuclear próxima ao Monte Fuji começa a derreter, pintando o céu com um vermelho horrível e compelindo milhões de cidadãos japoneses a escapar desesperadamente pelo oceano. Neste episódio Akira Kurosawa nos submete novamente aos seus pesadelos. A história narra a tensão entre três personagens, a saber, três adultos e duas crianças, eles são deixados para trás no local, eles percebem que a radiação os matará de qualquer forma mesmo sabendo que um deles revela ser corresponsável pela tragédia, o personagem diz que "coloriu" as fumaças radioativas para distingui-las uma das outras. Logo depois, este joga-se do penhasco por se sentir responsável pelas vidas perdidas. Mais uma vez Kurosawa nos brinda com suas imagens com cores fortes. É interessante como as cores nas obras de Kurosawa nos remete a tantos significados!
(imagem de Einsenstein) Para Eisenstein, em determinada situação a cor estaria ligada à imagem resultante como todos os elementos que dela fazem parte. Dessa forma, a relação cor/significado depende do contexto. Mas quem influenciou quem? O que nos remete também as obras de Kieśloviski, onde cada cor remete as cores da bandeira francesa, ao mesmo tempo em que as três palavras consagradas da história francesa revolucionária, a saber, liberdade, igualdade e fraternidade. Fato curioso entre Kurosawa e Eisenstein, pois sabermos que o próprio Eisenstein estudou a cultura visual nipônica , o que deu a Eisenstein ferramentas necessárias para começar a pensar a construção de sentido por meio das imagens, esta analise encontra-se em seu livro “O Sentido do Filme” (the film sense). O próprio título abre para o espectador a cor predominante e significativa da obra, a saber, o vermelho. Este vermelho (em japonês Mizuiro) sempre nos remete algo forte como uma emoção, terror de algo, mal, inferno, fogo, paixão. Enquanto que no episódio a referência se faz na obra de Van Gogh – não devemos esquecer que Van Gogh, o qual tinha gosto pelo amarelo. Parece-nos que o diretor tem prazer em mergulhar o espectador nas cores, se podermos captar todas as cores predominantes nos episódios do longa poderemos ter uma noção de sua natureza, e talvez entrar no seu inconsciente. Não me parece apenas uma cor, algo se assenta sobre esta cor, o vermelho como cor favorita da revolução russa, do sol vermelho da bandeira japonesa, a predileção do vermelho pelos histéricos (ver Eisenstein p. 96). Justamente vermelho é a cor que Kurosawa utiliza para simbolizar a mortal fumaça venenosa, fazendo um paralelo não apenas a morte mas também o sentimento de desespero dos personagens. Este vermelho significa a forma mais cruel, a saber, da tensão entre responsabilidade, tecnologia e desespero face a força do átomo, o que nos remete ao fato que o próprio japão sofreu o primeiro ataque atômico. Neste sentido, o vermelho toma a forma de um aviso ao espectador sobre a ameaça atômica.
Referência:
Eisenstein. O sentido do filme. Apresentação, notas e revisão técnica de José Carlos Avellar. Tradução de Teresa Ottoni. Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro. 2002.


3 comentários:
Ótimo texto analítico! Está pronto sim o meu, mandarei para o seu e-mail.
O seu sumiço foi mesmo longo, espero que esteja tudo bem. Poste quando for conveniente para você! Até!
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