
Dentre as novidades do cinema, é quase notório para os fãns dos quadrinhos que o filme Watchmen tem sido o mais esperado de todos os tempos. A HQ foi escrita em 1986 por Alan Moore e Dave Gibbons, chegou às bancas de revistas americanas entre 1986 e 1987, e é considerada por todos os leitores de quadrinhos uma obra prima da nona arte. Com mais de 400 páginas, a trama se passa por outra realidade onde o mundo co-existe com heróis mascarados. Zack Snyder (de Madrugada dos Mortos e 300) indicado como diretor no final do mês passado assina o filme. Foi uma espera de mais de 20 anos para os fãns da série, que desde o princípio oravam pela adaptação do cinema devido a qualidade dos quadrinhos. A complexidade da estrutura narrativa é surpreendente, Watchmen separa seus capítulos em quadrinhos com textos que fingem ser retirados de outras mídias impressas como jornais e livros (1). Mesmo nos quadrinhos, temos três dimensões distintas na narrativa: a trama principal, sequências que mostram a vida de uma série de pessoas comuns na agitada cidade de Nova York alternativa, e a história em quadrinhos que uma dessas pessoas lê. Por último, Watchmen eletrizou muita gente por seu discurso político, que advertia sobre a enorme quantidade de caminhos que poderiam conduzir ao fascismo num mundo como o nosso (Lembremos de Buch & Cia).
O mais interessante filosoficamente na narrativa do filme é sem dúvida a questão levantada por Ozimandias por salvar a humanidade por meio pouco ortodoxo. Se lembrarmos do final, há uma questão ética de fundamental valor. Os fins justificam os meios? Explodir a cidade e culpar Mr. Manhattan (herói cientista que no filme trabalha numa forma de energia renovável) para impedir a 3ª guerra mundial? Foi a solução encontrada pela personagem Ozimandias (na HQ de Alan Moore há uma lula gigante que cai na cidade!). O anti-herói cria uma bomba feita da mesma matéria do Mr. Manhattan (o homem mais poderoso da terra) e destrói a cidade de new York para culpar Mr. Manhattan e assim estados unidos e a união soviética pararia a guerra fria e uniriam forças para combater um inimigo comum.
O filósofo Maquiavel nos revela que no domínio da ação política é preciso considerar sempre o resultado e não as intenções. Pela perspectiva de Maquiavel pouco importa se a intenção com a qual o homem público realizou determinada ação foi reta ou não, ou se há nela alguma “correção intrínseca”, mas, se o seu efeito pôde garantir um bem à coletividade. A ética em Maquiavel se contrapõe a ética cristã, para a ética cristã, as atitudes dos governantes e os Estados em si estavam subordinados a uma lei superior e a vida humana destinava-se à salvação da alma. Para Maquiavel a finalidade das ações dos governantes passa a ser a manutenção da pátria e o bem geral da comunidade, não o próprio, de forma que uma atitude não pode ser chamada de boa ou má a não ser sob uma perspectiva histórica.
Reside aí um ponto de crítica ao pensamento maquiavélico, pois com essa justificativa, o Estado pode praticar todo tipo de violência, seja aos seus cidadãos, seja a outros Estados. Ao mesmo tempo, o julgamento posterior de uma atitude que parecia boa, pode mostrá-la má.
A questão do filme pode ser analisado a partir de uma ótica maquiavélica? Talvez, afinal de contas alguns heróis morreram no final do filme por Mr. Manhattan (Coruja II e Rorschach se mostraram contra a atitude de Ozimandias). O filme propõe uma discussão sobre problemas cotidianos, e que mostra os perigos de se construir uma sociedade com políticas que se fundamentam na tese de que os fins justificam os meios.
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Nota: (1) Watchmen ganhou vários prêmios, como os Prêmios Kirby e Eisner, além de uma honraria especial no tradicional Prémio Hugo, voltado à literatura: é até o momento a única graphic novel a conseguir tal feito. Watchmen também é a única história em quadrinhos presente na lista dos 100 melhores romances eleitos pela revista Time desde 1923.
Referencias bibliográficas:ESCOREL, Lauro. Introdução ao pensamento político de Maquiavel. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1979. p. 19.
RIDOLFI, Roberto. Biografia de Nicolau Maquiavel. São Paulo: Musa Editora, 2003. p.19.
Recentemente, a editora Via Lettera relançou Watchmen no mercado nacional em três volumes.